Crônica: Desesperado

Parecia uma prova comum de vestibular, como muitas outras que eu já havia feito; questões chatas, muito sono e pessoas tossindo ao lado. Pois bem, após solucionar cálculos e mais cálculos, finalmente chegou a parte que eu mais temia: a redação! Desde pequeno, sempre fui um problema em relação a isso, tão sério que uma vez fui parar na coordenação, por xingar a professora em um dos meus harmoniosos textos. Mas dessa vez, as exigências tinham passado do limite! A temática “NADA”, meteu medo no primeiro contato. “Escrever sobre nada… hunf… Isso é impossível! Quem eles pensam que são, pra impor um absurdo desses?” Resmungava.

Experiências em que eu não tinha absolutamente nada para jogar no papel eram totalmente estranhas à minha pessoa. E para o meu azar, naquele dia aconteceu exatamente isso. Certo que o tema não era dos mais sugestivos, mas, o fato era que, eu precisava de uma idéia. Sabendo do perigo, mantive a postura, e pus-me a pensar. Martelei, martelei, e nada saiu. Fiquei com medo! A folha em branco, à minha frente, gritava feito louca. Sem falar da caneta, que parecia uma insana querendo pular da minha mão a qualquer momento. Cheguei à conclusão de um suposto complô neuro-criativo, que provavelmente se estenderia durante aquela tarde. Tudo cooperava, menos meu cérebro. Numa situação dessas, em que o destino das coisas será decidido mediante seu desempenho, é imprescindível manter o controle. Aos poucos, fui me conformando… “É só um vestibular, magina…” Pensava eu. Já que não veio a idéia, a solução era ceder e oficializar o meu fracasso. Mas, espere! E se durasse por toda a vida? Seria o fim! Calma, pânico nessas horas só vai tornar tudo ainda mais difícil. Todo mundo às vezes sofre um hiato criativo, isso é normal. O problema era acreditar nisso; mamãe sempre disse que fui neurótico demais… ai ai! Talvez ela estivesse certa. O relógio de pulso me devorava. Precisava escrever algo! Não ousaria entregar a folha em branco, isso nunca, jamais!

Aos poucos, fui reunindo as lembranças. Personagens, que ao mesmo tempo eram alguém ou ninguém… Lugares, que ora estavam lá, ora eram apenas ilusões… Sentimentos, que fustigavam a alma, numa incessante busca do acalento. Após isso, concluí que o “nada” existe! E está em qualquer lugar que o procuramos; a qualquer hora. Nada é tudo. É isso! Missão cumprida! Mas a neura continua…Talvez eu precise de um psicanalista.

Felipe Pinheiro
Colunista

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