Depoimento: Orgulho de ser o que é

da Folha Online

por Luiz Caversan

“Minha mãe não sabe, se soubesse ia chorar muito. Meu pai? Me mataria muito! Quer dizer, me mataria, porque matar é matar, muito ou pouco, não importa. Meu irmão desconfia, porque já tentou duas vezes dar em cima de amigas minhas e se deu mal, elas não estavam nem aí com ele. Já comigo…

Fui sempre assim, e tem gente que ainda fala que é uma “opção”. Opção a gente opta, e eu nunca optei por gostar de mulher. Apenas gosto. E não gosto só de sacanagem, não, é gostar do carinho, do afeto, entende?, da alegria que elas têm e que eu tenho, da vontade de ficar juntas, da amizade e da solidariedade, do bom caráter, porque mau caráter pode ser gay, lésbica ou macho pacas que eu quero distância…

Meu pai e minha mãe, que são “normais”, estão juntos há 40 anos e são absolutamente infelizes, de que adianta essa normalidade e esse estar certo hipócrita?

Se é assim, eu estou errada mesmo e pronto, dane-se.

Agora é mais fácil, as coisas evoluíram e embora ainda tenha muita gente ignorante que faz questão de não entender, de achar que é pura promiscuidade e malandragem, muitas outras pessoas entendem ou pelo menos nos aceitam. A mim têm que aceitar mesmo, porque eu sou independente, bem sucedida profissionalmente e, modéstia à parte, muito bonita –você não acha?

Não sou masculinizada, ao contrário me considero bem feminina, mas tenho amigas tipo “caminhoneira” que no fundo são uns doces, assim como há muito homem bruto pra fora e extremamente sensível por dentro. Mas essas amigas tipo “mulher macho” também não são assim porque querem, são porque são, oras. Exageros? Claro que tem exagero. Quanto tempo essas moças foram reprimidas, hostilizadas, segregadas? No fundo tentam compensar anos e anos de preconceito. Mas o que você tem a dizer sobre esses caras tipo pitboys, bombados e tatuados? E as peruas botocadas e vestidas com grife dos pés à cabeça e que dão em cima de garotões nos bares da vida? Não são exageradas também?

Meu caro, a vida é curta, curta a vida, viva e deixe viver, como se dizia na Bahia anos atrás. Vai amanhã lá na Parada Gay pra ver que lindo. Serão milhares de pessoas exibindo sua alegria de viver –e otras cositas más, mas e daí, os heteros não exibem quase tudo no Carnaval e na praia e ninguém não está nem aí?

Ficar chocado não vai ajudar a entender.

Aliás, não há muito o que entender, porque o processo de entendimento está em pleno processo, sacou?

E o mais importante agora é a consciência de a gente ser o que é e, ao invés de vergonha, ter orgulho de ser. Tenho orgulho de ser uma homossexual feminina e acho sinceramente que se os homens heteros tivessem orgulho de serem assim e as mulheres também, esse mundo seria muito, muito melhor.”

(Depoimento de uma amiga linda e absolutamente resolvida, que veio a São Paulo para, com muito orgulho, participar da Parada Gay)

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Ah, se todos fossem menos hipócritas e seguissem o exemplo de nossa “amiga linda e absolutamente resolvida”… bom saber que o mundo está, aos poucos, mais colorido!

Viva a diversidade sexual!

Parada Gay já registra público de 1 milhão na região da Paulista, estima PM

da Folha Online

A Polícia Militar divulgou a primeira estimativa de público presente na região da av. Paulista, onde acontece a 11ª edição da Parada Gay de São Paulo. Há cerca de 1 milhão de participantes, segundo Silvio Sciacca, capitão do 11º Batalhão. Os trios elétricos começaram a se deslocar em direção à rua da Consolação.

Com o domingo enrolado, com temperatura acima dos 20ºC, a tendência é que o evento incorpore mais participantes ao longo de seu percurso. A dispersão deve ocorrer na praça Roosevelt por volta das 20h30.

Com o tema “Por um mundo sem racismo, machismo e homofobia”, a Parada Gay vai tentar mais uma vez quebrar o recorde de público, neste domingo. No ano passado, a polícia calculou em 2,5 milhões de participantes –número que foi usado no “Guiness 2007”, o famoso livros dos recordes.

Para o evento deste ano, os organizadores informaram à Secretaria de Segurança Pública uma expectativa de 3,3 milhões. A Prefeitura de São Paulo estima um número menor, de 3 milhões.

Apoio

Uma das novidades da Parada Gay foi o recebimento de apoio governamental, com patrocínios de gigantes como Caixa Econômica Federal e Petrobras. A confirmação antecipada da av. Paulista como palco da festa também contribuiu para um melhor planejamento do evento, favorecendo o trabalho de divulgação desse mercado (hotéis, restaurantes, bares, boates e outros estabelecimentos que atendem ao público GLS).

No final da manhã, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, participou da entrevista à imprensa com os diretores da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo. “O Brasil é cada vez menos um país preconceituoso”, disse o prefeito.

Kassab reafirmou seu apoio ao evento e destacou a importância econômica da Parada Gay para o turismo da cidade de São Paulo. A entrevista contou com a participação dos ministros Orlando Silva (Esporte) e Marta Suplicy (Turismo).